Naqueles tempos criávamos, produzíamos e distribuíamos as vitrines d’O Boticário. Um trabalho que iniciou com as nove ou dez lojas próprias que existiam em Curitiba e foi crescendo, crescendo, até atendermos toda a rede no Brasil e até no exterior.

Foi uma experiência fantástica: desenvolvermos o conceito das vitrines, ora institucional, ora seguindo uma data, ora apresentado o lançamento de um novo produto.

Não era fácil, pois além de criar, tínhamos que produzir aquilo que era criado e depois, distribuir aquilo que tinha sido produzido, garantindo que chegasse inteiro, inclusive no interior do Acre.

A dificuldade maior, era que sempre estávamos produzindo algo diferente e quanto acertávamos a mão, começava uma nova produção, com características, materiais e mão de obra, totalmente novas e diferentes da anterior.

Alguns materiais, entretanto, se repetiam. Alguma coisa feita de madeira, por exemplo, volta e meia, tava na programação.

Um dos marceneiros que nos atendia nesse quesito, era o Zenóbio. Nunca mais o vi, mas me recordo com muita saudade, daquele tempo em que ele era um dos nossos fornecedores mais importantes.

Comigo, seu cliente, o Zenóbio, que mais parecia um Rei Momo de mau humor, era cordial e atencioso. Com seu dois filhos e o resto da família dele, porém, era o capeta.

Como qualquer marceneiro, a oficina do Zenóbio, junto com sua casa, era longe, muito longe. Num tempo sem Contorno Norte, celular, sem WhatsApp, sem computador, apenas fax, minhas idas até Almirante Tamandaré, pra tratarmos do desenvolvimento dos trabalhos, eram constantes.

Como sua barriga era imensa, qualquer coisa abaixo de setenta centímetros, ele não conseguia pegar. Daí ficava bravo, nervoso, apontando algo no chão, com um martelo ou qualquer outra coisa na mão, xingando, gritando e falando palavrões, até que fosse atendido por um dos rapazes. Daí virava pra mim e calmamente falava: do que estávamos conversando, mesmo?

Telefone havia, mas quando o trabalho tava atrasado, atrasava todo o andamento do projeto e eu não conseguia cobrar as coisas dele, com minhas insistentes ligações, pois o danado do homem simplesmente não atendia.

Cada hora era uma desculpa. Ora diziam que ele tinha saído, ora que não tinha chegado ainda, parecia a velha brincadeira de gato e rato. Um dia, pensei: vou pegar este cabra e vai ser hoje.

Toginho era um joalheiro, cliente nosso, cuja obra em sua loja, nos fez com que conhecêssemos o Zenóbio, que tinha muito respeito e gratidão por Toginho.

Naquele dia, depois de varias ligações, onde dava com os burros na água, liguei, novamente, mas com a voz alterada, num tom acima e com um leve sotaque mineiro, perguntando, firmemente, pelo Zenóbio.

Quem quer falar com ele?? É o Toginho, respondi. Na mesma hora, um Zenóbio, esbaforido e preocupado, atendeu o telefone: Alô, alô, Toginho??

Aha, seu porqueira! O Toginho você atende, né? Coitado do Zenóbio, gaguejou, gaguejou e não saía nada, de tão nervoso que o coitado ficou. Imagino que muita gente deva ter levado umas marteladas, depois, com telefone no gancho…