O primeiro projeto que criei pro Boticário, foi uma vitrine institucional, que significa, não ser atrelada a nenhuma data e a nenhum produto em específico. Seu caráter é a neutralidade, evocando apenas à marca e aos conceitos fundamentais de como ela deve ser vista pelo público.

Naquela primeira vitrine, da qual não tenho fotos, utilizei a ideia das flores nascendo de cacos de vidro temperado, expressando a sobrepujança da natureza, sobre a tecnologia. 

Como O Boticário, naquela época, meados da década de oitenta, tinha sua imagem fortemente ligada à natureza, este foi, por diversas vezes o tema explorado nas vitrines institucionais desenvolvidas posteriormente.

O objetivo da vitrine é chamar atenção. As lojas, naquela fase, não possuíam vitrines altas, que permitissem a utilização de grandes painéis. O que podíamos fazer era, através da criatividade, criar pontos de interesse nas próprias prateleiras, valorizando assim, a presença dos produtos. 

O interessante é que mesmo tendo que produzir vitrines numa grande quantidade e num tempo restrito pra produção e envio, as concepções das vitrines, pela necessidade de despertar a magia a quem as visse, nunca privilegiaram o minimalismo, ao contrário, sempre foram ricas em significados e em detalhes. 

Numa delas, o conceito da natureza foi abordado através de uma floricultura. Feita de madeira e vidro, as pequenas vitrines expunham vasos de flores que eram miniaturas no formato da tradicional ânfora, de praticamente todas as colônias na época.

Os próprios produtos, em forma de ânfora, foram utilizados na vitrine seguinte: meia dúzia deles apareciam na carroceria de um caminhão, estilo calhambeque dos anos 30, como se fosse a valiosa carga a ser transportada. 

No ano seguinte, as ânforas foram postas de lado e flores tomaram conta da vitrine. Barracas de feira, feitas de madeira e tecido listrado, apresentavam minúsculos cestos, feitos em Santa Felicidade, com flores secas do serrado. 

Flores também foram utilizadas na vitrine seguinte: uma estacão, à espera da chegada do trem. Flores, de diversas cores, esperam o devido carregamento, em sacos feitos de estopa. 

No próximo ano, o Dr. Botica, personagem que representa a marca, brilhou todo o ano, aparecendo, tipo Balas Zequinha, em todos os eventos: do Verão, numa pescaria, até o Natal, onde, como Papai Noel, descansava em sua poltrona, de pijama e pantufas, provavelmente após o serviço feito. 

Pra vitrine institucional, obviamente o Dr. Botica, entrou como ele mesmo: com a roupa tradicional de mago, trabalhando em seu laboratório, transformando flores, acomodadas em gamelas de madeira, em perfumes naturais. 

Lidar com tudo isso não era nada fácil, mas sabe que dá uma saudade daquele tempo?